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António Bagão Félix

 
 

“Os chefes são líderes mais através do exemplo do que através do poder.”
 

Tácito

 

 

A empresa começou por ser, na Idade Média, uma noção geográfica de simples ajuntamento de pessoas. Já no princípio do século passado, com a Revolução Industrial, passou a ser percebida como um conceito físico e de gestão de recursos materiais. Hoje, cada vez mais é assumida como um conjunto poderoso de técnicas e tecnologias da velha ou da nova economia. Ao longo desta evolução, porém, a empresa nunca deixou de constituir, também e necessariamente, uma comunidade de pessoas. E como tal nunca deixou de ser uma entidade moral.

 

A empresa como entidade moral é ou deve ser, em primeiro lugar, o maior denominador comum dos diferentes e legítimos interesses dos accionistas, dos trabalhadores, do Estado, dos clientes, da sociedade em geral, dos fornecedores até. Mas deve ser, também, uma referência de valor na e para a sociedade, um centro de responsabilidade social. Por outro lado, a empresa tem de ser um espaço de realização nas suas três componentes: pessoal, cívica e profissional. Finalmente, uma empresa deve assumir-se como uma escola de conhecimento, uma escola de cultura diferenciada e própria.

 

Por tudo isto, e em meu entender, é cada vez mais adequado afirmar-se que o mercado é um conjunto de relações entre pessoas, produzindo, consumindo e trocando serviços e bens. É isso que lhe dá, aliás, uma não negligenciável dimensão moral.

 

Considero fundamental que numa empresa ou numa comunidade laboral existam um conjunto de valores e de saberes, que constituem a sua dimensão ética.

 

O primeiro dos valores é o direito-dever.  Não é por acaso que ambas as palavras aparecem associadas com um hífen. Não há direitos sem deveres e não há deveres sem direitos. Embora normalmente nos lembremos mais dos direitos do que dos deveres.

 

Outros valores essenciais são o carácter, o respeito, a honradez, a coerência (esse recurso tão escasso às vezes), a sensatez, a sobriedade, a lealdade, a amizade, a exemplaridade, a equidade, a solidariedade, a autenticidade, o orgulho de pertença a uma instituição, a privacidade ou o respeito pela esfera íntima e pessoal de cada um de nós.

 

Quanto aos saberes que considero imprescindíveis numa empresa, poderia sintetizá-los da seguinte forma: o saber cognitivo que é o que nós chamamos o conhecimento; o saber fazer que é a capacidade; o saber ser que é a experiência; o saber estar que é o relacionamento; o saber mudar que é a adaptação (hoje uma sabedoria fundamental); o saber aprender que é a formação; o saber dar e receber que é a partilha; o saber comandar que é a liderança; o saber envolver-se que é a participação; o saber acreditar que é a motivação; o saber rir que é o humor e o sentido lúdico da vida; e o saber compreender que é a ternura, que também é uma sabedoria muito importante e às vezes nem sempre abundante.

 

Na era da globalização de quase tudo em que hoje vivemos, tudo tem tendência para se igualizar (técnicas, tecnologias, matérias, capitais, métodos, comunicações, etc.) excepto... as pessoas, porque as pessoas são o recurso e o bem mais importante. Toda a gente o diz. Aliás, faz mesmo parte dos discursos oficiais, mas é curioso constatar que a contabilidade das empresas nem sempre o reflecte totalmente.

 

O contributo desta excelente e oportuna obra não se centra nesse ”evidenciar contabilístico”, mas para tal poderá contribuir se ajudar a passar esta máxima dos discursos oficiais para a prática quotidiana. E como o pode fazer? Dando pistas para o exercício da liderança, enquanto acto fundamental de gestão de pessoas. E sem nunca perder de vista a sábia reflexão de Paul Valéry: “Um chefe é tão só uma pessoa que precisa dos outros”.

 

A pertinência deste tema assume actualmente grande relevância, face ao novo desafio que Portugal hoje enfrenta.

 

Nas últimas décadas, vivemos uma conjuntura em que economia e emprego se desenvolveram em função do natural crescimento e expansão dos nossos mercados. Actualmente tal já não é possível, uma vez que vivemos uma fase de saturação, com mercados a atingirem o seu patamar de maturidade.

 

Pela primeira vez somos assim confrontados com um novo paradigma para o desenvolvimento: o da competitividade e da rendibilidade. Para haver desenvolvimento já não basta crescer: é preciso produzir mais com menos consumo de recursos. Para o conseguir, não basta a tradicional solução de reduzir custos.

 

É preciso, acima de tudo, inovar e criar mais valor.

 

Tal só se consegue através das pessoas. A ordem material está sempre condicionada à ordem humana. Humanizar as organizações é pois um imperativo nacional.

 

Parabéns sinceros ao Dr. Ricardo Fortes da Costa pela iniciativa de, através desta obra, contribuir para este imperativo. 

 

 

 

Lisboa, Fevereiro de 2003



Ministro da Segurança Social e do Trabalho - XV Governo Constitucional

 

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