Trabalho e Profissão na Sociedade Pós-Capitalista - RH Magazine (2005)

Trabalho e profissão: significados em evolução

Vivemos numa sociedade em que o trabalho e as profissões têm uma importância fundamental na nossa própria definição enquanto indivíduos.

De facto, é difícil imaginar alguém na idade adulta sem que a questão da actividade profissional seja equacionada: não é por acaso que uma das primeiras perguntas que fazemos sobre outra pessoa é “o que faz na vida?”.

Este “fazer na vida” é o denominador central do nosso conceito social da pessoa, determinando todos os juízos de valor que posteriormente venhamos a fazer sobre ela. E nesta matriz valorativa pesa não só o facto de se trabalhar ou não, como também a profissão que se tem. Apesar de ainda se usar muito o lugar-comum de que “todos os trabalhos são dignos”, a verdade é que uns são mais dignos que outros (como bem sabe a nossa comunidade emigrante).

É curioso constatar a evolução que o significado social do trabalho sofreu ao longo do tempo. Enquanto que em plena Idade Média o trabalho era visto como algo penoso e pouco digno (reservado à classe servil), com a ética protestante surgida com o calvinismo o trabalho transforma-se numa forma de colaboração com Deus na obra da Criação. Evolui-se assim para uma concepção virtuosa, em que as actividades intelectuais e criativas passam a incorporar o conceito de trabalho.

Com o advento da Revolução Industrial, o trabalho adquiriu o seu sentido moderno, enquanto esforço necessário para o alcance de um melhor nível de vida e da respectiva dignidade social. O trabalho assume assim uma condição de actividade emancipadora do Homem, numa perspectiva claramente antropocêntrica.

O trabalho é actualmente visto como uma condição essencial de valorização do papel do indivíduo na sociedade, através da atribuição de “utilidade social percebida” (pelos outros membros da comunidade). É por isso que o estatuto de “desempregado” gera tantos anticorpos entre nós, o que justifica a existência de uma larga franja de “desemprego envergonhado”. Enquanto que o trabalho voluntário é visto como algo respeitável, estar desempregado é algo que é visto com um misto de pena e desconfiança, que está claramente associado ao rótulo de “inutilidade social”.

O trabalho assume-se pois como peça central dos papéis sociais, mas, nas sociedades desenvolvidas,  cada vez menos pela sua relevância económica e cada vez mais pela sua relevância contributiva.

Por outro lado, a evolução social e económica das últimas décadas veio mudar radicalmente o papel do trabalho e dos trabalhadores nas sociedades mais desenvolvidas.

O papel de quem trabalha nas sociedades pós-capitalistas

Vivemos numa época de mudança turbulenta, em que a evolução tecnológica crescente, em paralelo com a progressiva queda de barreiras comerciais, conduziu-nos a um mundo cada vez mais globalizado. Neste novo mundo, todos tendemos a ter acesso ao que se passa em qualquer ponto do globo e, consequentemente, tendemos a ser potencialmente afectados por tudo aquilo que se passa em qualquer ponto da “aldeia global”.

O desenvolvimento exponencial das novas tecnologias de comunicação e informação, com o advento da Internet e da “revolução digital”, levou ao emergir de uma Nova Economia, em que a criação de valor já não depende da criação de produtos inovadores (facilmente imitáveis em cada vez menos tempo), mas sim na permanente inovação nas formas de satisfazer o cliente - cada vez mais através da vertente relacional, apelidada no mundo dos negócios de “excelência de serviço”.

O desenvolvimento económico e a evolução concorrencial dos mercados livres é já tão rápida que as próprias empresas da “Nova Economia” foram já forçadas a repensar o seu posicionamento no mercado. A crise das empresas “dot com”, com a queda brusca e inesperada da sua cotação em bolsa, em virtude de maus resultados de negócio e de grandes dificuldades de retorno do capital investido, levou a que apenas as melhores sobrevivessem. O mercado acabou por demonstrar que a “Nova Economia” era afinal apenas mais um canal de distribuição da “Velha Economia”.

Por isso mesmo, no contexto actual já não basta às empresas dar resposta adequada às exigências que surgem do meio envolvente: é necessário que consigam antecipar essas mesmas exigências e necessidades. Assim, a necessidade central das organizações passa presentemente pela sua flexibilidade organizacional e pela sua capacidade de inovar, o que faz com que o papel das pessoas nas organizações assuma um novo protagonismo, uma vez que é delas que dependem em grande parte as novas valências organizacionais. Os trabalhadores das empresas pós-capitalistas são valorizados fundamentalmente em função da sua capacidade de adaptação à mudança, do conhecimento que possuem e do conhecimento que podem vir a criar.

Desta forma, as capacidades de pensar e aprender passam a ser as suas principais ferramentas de trabalho, ajudando a organização a gerar respostas adaptativas. Ironicamente, é no seio das sociedades capitalistas que se cumpre o sonho marxista: os trabalhadores são finalmente os verdadeiros detentores dos factores de produção (conhecimento e capacidade de inovação)!

Neste novo cenário, em que o mundo do trabalho é cada vez mais complexo e imprevisível, menos regulado ou seguro mas mais criativo, a competência profissional deixou de ser um conceito estático para ser um activo em permanente aquisição e renovação, em que a formação ao longo da vida assume uma importância cada vez maior.

Apesar da mudança da sua natureza e do seu peso nas relações entre os diversos actores do processo produtivo, o trabalho não deixou no entanto de ser o veículo fundamental para o alcance de três tipos de objectivos:

  1. Económicos – numa perspectiva mais conservadora, o trabalho permite alcançar a “segurança económica”, tão valorizada pelas gerações do pós-guerra; numa perspectiva mais materialista e individualista, o trabalho permite ganhar mais dinheiro, logo ter mais bens e ostentar mais sucesso (numa óptica amoral de que “somos o que temos”, em vez de “sermos o que fazemos”);
  2. Sociais – o trabalho potencia não só o estabelecimento de relações humanas mais diversificadas e ricas (sendo que, em alguns casos extremos, são as únicas relações sociais estabelecidas fora do núcleo familiar), como também condiciona um determinado estatuto social (em função da valorização que os outros façam da profissão desempenhada);
  3. Psicológicos – o trabalho é uma via (por vezes a única...) de desenvolver níveis satisfatórios de auto-estima, de afirmação pessoal, de sentido de utilidade, em suma, de identidade (o trabalho é pois visto como um veículo de criação de significados na nossa vida).

Esta importância do trabalho no cumprimento de objectivos significativos de vida faz com que ainda hoje o mesmo assuma um papel central na sociedade, o que é particularmente notável se atendermos a que a sociedade actual é uma sociedade cada vez mais orientada para o lazer e não para o trabalho. Vive-se actualmente numa “cultura de facilidade” e vez de se procurar alcançar uma “cultura de felicidade”. E a felicidade, como tudo o que vale a pena na vida, implica esforço e persistência...

O aumento da oferta dos bens de fruição, bem como do acesso à cultura e ao entretenimento poderiam levar a pensar que o trabalho perderia gradualmente esse seu papel central. Todavia tal não aconteceu, uma vez que a sociedade do lazer é igualmente uma sociedade de consumo (que exige poder de compra). Desta forma, o trabalho evoluiu de um cenário de centralidade para um quadro de referência onde impera a polaridade, ou seja, apesar de continuar a ser um instrumento potente de autonomia e afirmação social, pode e deve ser complementado com outro tipo de actividades enriquecedoras, como as actividades de lazer, culturais ou até a própria fruição da família.

E curiosamente, estudos recentes salientam precisamente a família como o único valor que se sobrepõe ao trabalho em termos de importância...

Esta nova ética de vida, em que o balanceamento das diversas dimensões da nossa existência é garante de qualidade de vida, não é ainda, em muitos casos, confirmada na prática, o que evidencia uma distância entre o que os cidadãos valorizam e a forma como a sociedade e as organizações funcionam.

 

Uma nova gestão de vida

Vivemos hoje em dia num contexto de grandes contradições entre as possibilidades que a sociedade oferece e o estilo de vida que escolhemos para nós próprios.

A evolução socio-económica permite-nos (pelo menos a partir de um determinado patamar de capacidade financeira) ter acesso a um vasto conjunto de oportunidades de desenvolvimento, seja ao nível da oferta cultural, seja ao nível do simples lazer e aproveitamento de tempos livres, o que deveria traduzir-se num aumento visível da nossa qualidade de vida.

No entanto, em muitos casos, a qualidade de vida é confundida com simples aumento de capacidade de posse, traduzida em sinais de maior conforto material, por via da aquisição de bens materiais e equipamentos cada vez melhores e mais caros. Parece assim que, quando finalmente nos podemos libertar da “ditadura da subsistência”, caímos ironicamente na “ditadura da opulência” (ou, no mínimo, da ostentação).

Este tipo de ditadura não deriva já da clássica luta de classes, mas sim de uma verdadeira espiral de apelos ao consumo, fruto de uma sociedade cada vez mais hedonista e muito pouco solidária. Neste tipo de meio, é fácil cairmos numa verdadeira “armadilha de vida”, que é a de nos dedicarmos de tal forma à profissão,  perseguindo o tão almejado “sucesso na carreira”, que não nos sobra tempo para sermos pessoas em toda a sua plenitude.

E ser uma pessoa em toda a sua plenitude implica o exercício da cidadania - com tudo o que se espera de participação nas diversas facetas da vida em comunidade -, o exercício dos papéis de pais e educadores (enquanto agentes centrais da transmissão de valores), o assumir do papel de filhos presentes (no acarinhar de uma existência que existe para lá do fim da vida profissional e que não deve ser desprezada, ignorada ou simplesmente remetida para os cuidados paliativos de instituições distantes).

Como podemos constatar, ser uma pessoa completa implica que possamos realizar-nos, atribuindo significado a outras dimensões da vida (família, comunidade, afectos, saúde, etc.), por via da nossa participação activa nessas dimensões. E o que muitas vezes acontece é que as pessoas abdicam de muito do seu tempo a favor do trabalho, desequilibrando o seu próprio desenvolvimento sustentado enquanto seres humanos.

Não é por isso de espantar que muitos bons profissionais, ao terem de lidar com a situação de reforma ainda “jovens”, se sintam perdidos, sem saber o que fazer às décadas de vida que é suposto ainda terem pela frente. É fácil cair em situações depressivas quando subitamente se toma consciência de que deixámos os filhos crescer sem darmos por isso, e que os mesmos são hoje para nós pouco mais do que uns “estranhos afáveis”, que assumem para connosco algumas “obrigações familiares” (quando há tempo para isso, claro).

É perfeitamente compreensível que a auto-estima se vá gradualmente erodindo quando subitamente percebemos que a única competência que desenvolvemos ficou fechada na gaveta da nossa profissão. Quando a única opção que nos sobra é a de ver televisão, na esperança que os filhos ou netos se lembrem de nós ao fim de semana. Quando de repente nos vemos destituídos de finalidade ou sentido, porque já não temos ninguém de quem cuidar, nada para criar, nenhuma responsabilidade pela qual responder.

E uma vida sem essa componente criativa ou generativa é percepcionada como uma vida estéril.

Da falta de sentido à inacção é apenas um passo... e muitos desistem assim de viver a sua vida.

No entanto, esta via de alienação em prol do sucesso não é certamente uma inevitabilidade. O desenvolvimento da nossa sociedade também potencia outro tipo de apelos, bem mais animadores.

A sociedade da informação e a crescente tendência para o acesso à educação tenderá inexoravelmente (e apesar de alguns recuos conjunturais no passado recente), para a criação de uma opinião pública mais esclarecida e exigente, logo para uma sociedade mais equilibrada e responsável. O acto de consumir funcionará, só por si, como um regulador de mercado, que passa a ser uma expressão de poder resultante do somatório das opções individuais de todos os cidadãos.

Este fenómeno não é uma utopia, pois já hoje acontece, sem que nos apercebamos da sua verdadeira força. Só isso explica como a emergência dos temas ambientais ganhou força e poder de influência nas últimas duas décadas, condicionando fortemente o poder político e os agentes económicos.

Ora esta capacidade de sermos cada vez mais exigentes com a sociedade em que nos integramos reflecte-se também ao nível da exigência que temos de ter também connosco. É por isso que tenderemos (por muito que o processo evolutivo seja longo ou doloroso) a questionar o sentido da nossa actividade profissional e do nosso papel nas organizações onde passamos a maior parte do tempo.

Sabemos qual o nosso contributo para a organização? E o contributo da organização para a sociedade? Sem termos estas questões básicas respondidas, é difícil atribuirmos significado ao que fazemos no trabalho...

Somos valorizados em função dos nossos saberes e competências, ou apenas em função da nossa capacidade de obedecer a ordens? Esta questão despoleta outro problema latente em Portugal, que é o fosso entre a prática empresarial e os paradigmas da sociedade pós-capitalista em que já nos inserimos (na qual o primado da criatividade e da gestão do conhecimento são condições essenciais de competitividade).

A nossa herança milenar, de uma cultura normativa e centrada nas relações de poder – típica dos povos da Europa do Sul -, convive mal com a necessidade de livre pensamento, tolerância ao erro, empreendedorismo e capacidade para assumir riscos (competências fundamentais nas empresas que queiram vencer o desafio do sucesso sustentado numa economia turbulenta).

A responsabilidade de criar um ambiente favorável à criação de valor por via do capital humano não depende assim só de quem trabalha, mas é acima de tudo uma responsabilidade dos empresários e gestores, que têm a capacidade de intervir nas políticas e práticas empresariais no seu todo (envolvendo naturalmente os colaboradores no processo de mudança).

Temos pois de ser capazes de criar empresas organizacionalmente mais “ecológicas” - porque preocupadas em interagir harmoniosamente com o meio externo por via da gestão sustentada dos seus recursos internos (e o recurso essencial são as pessoas). No entanto, não nos esqueçamos que não há empresas ecológicas sem pessoas saudáveis, e isso só se consegue se essa filosofia ecológica se aplicar à sua gestão de vida.

Uma pessoa só é feliz e produtiva no trabalho se for feliz e produtiva nas outras dimensões da sua vida. Para isso, há que arranjar tempo (esse recurso tão escasso e precioso) para criar laços afectivos, desenvolver actividades comunitárias, criativas, artísticas ou quaisquer outras que ajudem ao desenvolvimento de pessoas equilibradas e realizadas. De pessoas com identidade e sentido de vida pleno.

Arranjar esse tempo é uma responsabilidade partilhada: por um lado, das organizações, que devem dar “espaço temporal” aos seus colaboradores; por outro, de todos nós, que muitas vezes teremos que assumir uma perspectiva crítica sobre a vida que levamos, optando por desenvolver estratégias de vida que nos ajudem a ser felizes nos tempos complexos em que vivemos.

...e essa opção ninguém pode tomar por nós.

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:43
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