Talento: como vencer o medo de falhar - SOL (2009)

Vivemos numa cultura fortemente influenciada pela apologia do sucesso, em que nos definimos por aquilo que fazemos e pelo destaque e aceitação que as nossas realizações logram alcançar. A versão mais provinciana deste paradigma meritocrático é aquela em que nos definimos em função do “posto” que temos na hierarquia de poder da instituição em que estamos empregados.

 

Seja qual for a forma como a sociedade valoriza o nosso trabalho, a verdade é que o conceito de sucesso parece estar nos antípodas do valor atribuído ao erro, geralmente asociado ao conceito de fracasso. Vem esta reflexão a propósito da perspectiva apresentada pela escritora Elizabeth Gilbert sobre talento e criatividade,  que nos relembra que vivemos numa sociedade em que o medo de falhar destrói em grande parte o nosso potencial criativo (http://www.ted.com/index.php/talks/elizabeth_gilbert_on_genius.html).

 

Na verdade, a nossa sociedade é construída tendo por base um ideal de sucesso que torna (erradamente) inaceitável o erro ou o falhanço, quando o mesmo é uma fase natural do processo de aprendizagem, que nos ensina a lidar com a adversidade e a superar dificuldades. É construindo em cima de erros que evoluímos, crescemos e nos desenvolvemos, sendo que as emoções negativas associadas ao facto de não termos conseguido os nossos objectivos não deveriam ser alvo de um reforço social negativo que levasse ao “bloqueio criativo”. Podemos assim afirmar que o erro é um dos grandes amigos da nossa aprendizagem!

 

Ao tentarmos fazer dos nossos filhos uma geração de “executivos de sucesso”, corremos o risco de transformá-los em seres pouco resilientes e nada sábios, que não aceitam falhar e não usam os erros como alavancas para o sucesso futuro… Não estaremos a criar uma geração de “potenciais frustrados”?

 

Apesar de ser produto da nossa herança histórica e cultural,  está nas nossas mãos mudar esta visão do erro e do sucesso, de forma a podermos usar todo o nosso potencial cerebral. Isso passa igualmente por combater a inveja: essa reacção medíocre dos que não se atrevem a descobrir e libertar o seu potencial criativo, achando mais fácil criticar e destruir os que ousam arriscar.

 

A construção desta nova forma de aprender e realizar - na escola, na profissão e mesmo no seio da família - não deve banalizar o erro, mas também não deve diabolizá-lo. Ele é parte natural da performance humana, tal como o sucesso: essa conotação positiva, esse sinal de reconhecimento, essa medida de aceitação pelos outros e de excelente capacidade adaptativa.

 

Não nos podemos esquecer que o sucesso mais não é que o valor percebido pelos outros, traduzido na capacidade de adaptação aos desafios, mas todavia transitório, pois transaccional – o que hoje é valorizado em mim pelos meus interlocutores pode ser desvalorizado se os interlocutores ou o contexto mudarem... O facto do sucesso ser efémero deve ser visto assim como algo natural e não redutor, que não deve implicar sofrimento ou culpa, mas sim prazer e felicidade (na superação permanente e na alegria de dar sentido ao que fazemos, dia após dia) - tal como defende a corrente da Psicologia Positiva.

 

Criatividade – como lidar com ela? Provavelmente assumindo-a como um processo intelectual em que as emoções têm um papel fundamental e que não deve ser excessivamente formalizado ou estruturado. Na minha perspectiva, o que deve ser extremamente profissional é a forma de canalizar esse potencial criativo para resultados, sendo que um erro clássico que cometemos, enquanto gestores de empresas, passa por tentar racionalizar o processo criativo, em vez de profissionalizar o processo de capitalização desses mesmos inputs criativos!

 

Todos temos o nosso génio, em vez de alguns de nós serem uns (raros) génios! Esta é uma perspectiva que não só evidencia o conceito transitório de sucesso, como reforça a visão de que o talento (ou génio) não é um dom raro, mas um potencial que todos podemos descobrir e libertar, desde que o saibamos procurar, trabalhar, treinar e adaptar às circunstâncias. E esta perspectiva de “democratização do talento” é absolutamente vanguardista e marca as tendências de futuro neste século da gestão.

   

Concluo com a nota de que, ao libertarmo-nos do medo de falhar, potenciamos o nosso talento de forma exponencial desde que não percamos o sentido de auto-crítica. E isto sgnifica na prática que nos poderemos sempre superar se persistirmos em libertar o nosso potencial criativo, em vez de nos tornarmos reféns dos sucessos ou falhanços passados.

 

Sobre outras formas de potenciar o talento que existe em cada um de nós, falaremos oportunamente.

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 10:02
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