O Paradigma de Guttenberg - Revista Prémio (2007)

No último século produzirarm-se mais ideias e inovações que no resto da história da Humanidade. Nunca houve tanta produção artística, seja ela literária, dramática, musical ou plástica. Também nunca houve tanto acesso à produção cultural e intelectual. Novos meios de expressão e difusão, alavancados na evolução tecnológica, permitem que cada vez mais pessoas tenham acesso a conhecimentos, ideias e sensibilidades novas.

Coloca-se actualmente um desafio à propriedade intelectual – como se defendem os direitos dos autores num mundo em que a palavra-chave é “acesso” (livre, instantâneo e globalizado)?

Vejamos alguns exemplos:

a)       Como defendo os direitos de um cantor, quando as suas músicas podem ser reproduzidas para suportes digitais, usando um simples computador e um acesso à Internet?

b)       Como defendo um produtor de software, quando o mesmo pode ser facilmente copiado (veja-se a rapidez com que se encontra na Net formas de “desbloquear” as defesas anti-cópia de produtos Microsoft...)?

c)       Como defendo um escritor, quando os livros que publica podem ser fotocopiados ou mesmo digitalizados?

A maioria das soluções propostas pecam, a meu ver, por um erro de raciocínio, a que chamo “O Paradigma de Guttenberg”. Porquê? Porque procuram responder aos desafios da era digital com base em pressupostos tão antigos como a invenção da imprensa!  Senão vejamos 3 exemplos:

a)       A guerra primeiro ao Napster, cujo encerramento apenas serviu para que o Kazaa e outros sites semelhantes florescessem. Por cada site que se encerre, abrirão mais 10 sites semelhantes... e comprar todos não resolve a situação a prazo...

b)       A legislação que criminaliza quem use software copiado (só em Portugal, haverá alguns milhões de suspeitos a fiscalizar...)

c)       O combate à reprodução de livros, enquanto os centros de cópias proliferam junto às escolas e a venda de scanners aumenta exponencialmente...

A era digital caracteriza-se pela liberdade: todos temos acesso à Web, que é “o maior livro aberto do mundo” (para o melhor e para o pior). Querer controlar a troca de informação é como tentar parar um tsunami usando as mãos.

Então a defesa da propriedade intelectual é uma guerra perdida? Não. Passou foi a ser uma guerra diferente, que exige compreensão das motivações de quem consome bens intelectuais e da forma como os quer adquirir. Acima de tudo, exige capacidade de inovar e acrescentar valor.

Algumas sugestões:

a)       Se a Microsoft baixasse os seus preços (por exemplo, vender o Windows a 50 euros), certamente veria as vendas subir. Quem não quer ter uma cópia legal, com direito a assistência e actualizações, por um preço acessível? Aprendamos com as empresas de software anti-vírus, que já vendem downloads a preços baixos, com elevado sucesso.

b)       O CEO da Apple, Steve Jobs, ao lançar o iTunes - site de venda de músicas on-line - conseguiu reinventar o negócio da produção musical, complementando os canais de distribuição tradicionais com um novo canal, que vendeu mais de 30 milhões de downloads de músicas a 99 cêntimos em menos de um ano. E os músicos que se associaram viram crescer o seu público potencial...

c)       Stephen King resolveu escrever um livro na Net. Outros autores seguiram a sua ideia, e não há notícia de que tenham ido à falência. É aliás interessante constatar como muitos professores já têm uma estratégia de distribuição “multi-canal”, publicando livros, lançando sites de complemento aos livros, disponibilizando material suplementar na Net (artigos, aulas, etc.), como forma de aumentar o seu público potencial e fidelizar leitores.

As cópias informais de bens intelectuais são hoje um crime socialmente aceite. Tal acontece provavelmente porque a legislação que criminaliza a prática não está adaptada à “realidade digital” que quer regulamentar. Assim, as cópias informais, sendo um comportamento inegável de grande parte dos consumidores, deveriam suscitar as seguintes interrogações:

1.       Um download livre não será hoje em dia mais um meio de publicidade (e divulgação sem custos) para autores ou editores?

2.       Ao alargar a base de potenciais consumidores, o download livre não permitirá criar novos clientes (quem experimenta e gosta a sério, pode passar a querer consumir o produto “genuíno”; quem não gosta a sério nunca compraria de qualquer modo)?

3.       Se alguém acha que o bem intelectual não merece o dinheiro que lhe é pedido, não terá muito provavelmente razão (a procura determina o valor)?

Criar uma oferta diferenciada a um preço acessível não é impossível: apenas exige mais criatividade e trabalho.

Para concluir, importa relembrar que o teatro foi condenado à morte desde que o cinema surgiu: já lá vai mais de um século e nunca se fez tanto teatro como agora!  O mesmo se disse do cinema e da rádio quando surgiu a televisão, entre muitos outros exemplos.

Porque será que todos sobreviveram e hoje coexistem, com mercados que continuam a crescer? Porque a capacidade de fazer melhor e diferente é uma característica (por vezes pouco usada) da condição humana.

Uma atitude de permanente inovação, seja qual for o nosso sector de actividade, potencia a competitividade mais do que qualquer medida proteccionista, alavancando-a na única vantagem competitiva sustentável - as pessoas - e criando aquilo a que poderíamos chamar o “Paradigma de Steve Jobs”.

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:26
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