Liderar Equipas na Era Pós-Capitalista

Publicado no "Diário de Todos" (edição luso-chinesa) a 31 de Março de 2015


Vivemos numa época de mudança turbulenta. Neste início de século assistimos a uma evolução tecnológica sem paralelo, especialmente no campo das tecnologias de informação e comunicação, que fazem do mundo de hoje um mundo ligado à escala global.

 

Em paralelo com este “choque tecnológico”, assistimos à progressiva queda de barreiras comerciais, o que nos conduziu a um mundo cada vez mais interdependente. Neste novo mundo, todos tendemos a ter acesso a bens, serviços e conhecimentos oriundos de qualquer ponto do globo e, consequentemente, tendemos a ser afectados por tudo aquilo que se passa em qualquer ponto da nossa“aldeia global”.

 

Este “choque socio-político e comercial” leva ao aumento da pressão competitiva entre as empresas, que passam a funcionar à escala global e a ter de lidar com as exigências da multi-culturalidade, bem como do trabalho em equipa em geometrias e geografias variáveis. Novos mercados se abrem, mas também novas culturas e novas formas de transaccionar e consumir estão a condicionar a forma de gerir e trabalhar nas organizações.

 

O emergir de uma era pós-capitalista, em que a criação de valor já não depende do lançamento de produtos inovadores (facilmente imitáveis em cada vez menos tempo), mas sim na permanente inovação nas formas de satisfazer o cliente - cada vez mais através da vertente relacional, apelidada no mundo dos negócios de “excelência de serviço”, levou a que o conhecimento, enquanto activo intangível, fosse catapultado para um papel de incontornável protagonismo no mundo dos negócios das economias desenvolvidas.

 

Actualmente, as empresas necessitam de ser capazes de ir mais além. Já não basta responder às exigências do mercado: é necessário que consigam antecipar as exigências e necessidades às quais deverão dar resposta. Desta forma, a necessidade central das organizações passa pela sua flexibilidade organizacional e pela sua capacidade de inovar. O que passa pelo imperativo de liderar equipas cada vez mais diferentes na sua composição e na sua forma de trabalhar.

 

Liderar estas novas equipas implica dominar as novas regras do trabalho pós-capitalista: são equipas constituídas cada vez mais por trabalhadores do conhecimento, que se habituaram a partilhar esse mesmo conhecimento em rede, e sabem que a combinação de talentos é geradora de sinergias, assim consigam promover um ambiente de trabalho colaborativo.

 

Estes tipo de trabalhadores é cada vez mais sofisticado e exigente, e valoriza cada vez mais a sua autonomia e liberdade para criar valor com recurso a novas ideias e novas tecnologias. Hoje em dia, a partilha é poder e a flexibilidade são uma vantagem competitiva que pode e deve ser potenciada junto deste tipo de equipas. Desde há muito que, por exemplo, em consultoria, se trabalha em projectos multidisciplinares, e em diferentes projectos (naquilo a que eu chamo o regime multi-projeto), o que leva ao desenvolvimento de novas capacidades de organização e a uma disciplina de trabalho cada vez mais rigorosa, apesar de multivariada na sua configuração.

 

O trabalho em ambiente multi-cultural e muitas vezes geograficamente disperso são desafios que estas novas equipas enfrentam, fazendo da diversidade e da proximidade por áreas de interesse e de talento ferramentas de alavancagem do alto rendimento em ambientes complexos.

Outro dos desafios típicos deste novo tipo de equipas passa pelos exigentes requisitos de trabalhar em postos de trabalho móveis, muitas vezes virtuais, sendo os colaboradores capazes de ser produtivos em qualquer parte do mundo.

 

Todos estes desafios são plenamente actuais e configuram grande parte das mudanças que todas as organizações enfrentam hoje, neste mundo pós-capitalista, de mudança permanente e aprendizagem contínua. Um mundo onde o conhecimento e a informação circulam à escala global, e onde a criação de valor atravessa fronteiras geográficas ao ritmo de um ou vários cliques.

 

É pois neste ambiente de mudança exponencial que a liderança se tem de afirmar como uma disciplina mobilizadora de vontades, em que a influência, a criatividade inspiradora e a tolerância vão assumir cada vez mais importância, em detrimento do clássico modelo de controlo e retribuição.

 

Porque as equipas tenderão a reunir colaboradores com vículos cada vez mais baseados na sua qualidade profissional e cada vez menos nas fronteiras geográficas. E é aqui que o Ocidente tem tanto a aprender com o Oriente. Este é o desafio mais atual da liderança.
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Ricardo Costa,
09/04/2015, 09:00
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