Ética Empresarial: Moda ou Prática? - Inforbanca (2004)

Assumindo que a Ética é um imperativo nas empresas modernas (por razões espiritualmente mais elevadas ou por razões mais economicistas), importa perceber como é que a mesma se traduz no dia-a-dia das organizações.

O passo mais fácil (e geralmente o único que é dado) é criar um Código Deontológico que enuncie os princípios éticos da organização e regule a conduta desejada de todos os colaboradores.

Sendo fundamental para tornar claro o que devem ser as linhas de conduta para todos os que trabalham na empresa, evitando equívocos e sub-culturas éticas distintas, não me parece que seja no entanto o mais importante.

O que mais vemos em nosso redor são organizações que proclamam fortes princípios éticos, mas que não os praticam no seu quotidiano. Os valores morais são assim proclamados, mas não vividos. E isso gera inevitavelmente a descrença e o descrédito.

Por outro lado, sistemas fortemente normativos e reguladores da conduta profissional são potencialmente geradores de burocracia e formalismo, desencorajando fortemente a tolerância ao erro, e inibindo a criatividade e inovação empresariais.

Isso não significa que devamos deixar cair a figura do Código Ético (até pela forte carga simbólica que o mesmo possui). Devemos é potenciar o seu uso e prática, tornando-o simples, facilmente  memorizável e operacionalizável, de forma a que seja uma ferramenta da nossa acção prática e não apenas um documento formal.

Para isso, deve o mesmo proclamar acima de tudo princípios e normas gerais, e nunca cair na tentação de regular todos os aspectos da conduta profissional.

E porquê? Porque excessiva regulação cria rigidez organizacional (por via da burocracia e do formalismo), além de partir do princípio (errado) de que as pessoas ou são estúpidas ou desonestas (porque incapazes de interpretar princípios com razoabilidade e justeza, de forma a fazer deles a melhor aplicação prática).

Se não deixarmos espaço para a livre tomada de decisões em função do contexto em que os problemas se colocam, nunca teremos organizações flexíveis o bastante para darem respostas adequadas e inovadoras às exigências do mercado, em tempo considerado útil.

Assim, o primado dos princípios sobre as normas parece assumir-se nos tempos que correm como um novo imperativo ético, que coloca na atitude dos gestores a grande responsabilidade do seu cumprimento efectivo. A liderança como modelo e exemplo de virtudes éticas não é assim dissociável do discurso ético.

Paremos um pouco para reflectir sobre uma afirmação muito em voga nos dias de hoje:

“A Ética Empresarial implica que as organizações olhem para as pessoas como fins em si mesmos e não como meros meios para se alcançarem outros fins.”

Não poderia estar mais de acordo com este princípio, desde que o mesmo seja assumido de forma bilateral...

Esta ressalva de princípio é necessária porque muitas vezes se profere esta frase com um sentido que está claramente influenciado por uma espécie de “tique marxista”, que assenta no pressuposto (também presente na legislação laboral portuguesa) de que a parte mais fraca é sempre o trabalhador e a parte mais forte (e, logo, potencialmente mal-intencionada) é sempre a empresa.

Este vício de pensamento é no entanto contrariado muitas vezes pela força dos factos...

É que tanto é verdade que a empresa pode olhar para os colaboradores de forma meramente instrumental, tendo deles uma visão redutora e meramente economicista (logo, não ética), como também pode o colaborador ter da empresa uma visão meramente utilitarista, em que a encara como um mero meio para obter o seu salário (seja lá de que forma for), o que é igualmente amoral.

Basta lembrarmo-nos  de quantas empresas fecharam as portas em Portugal porque não aguentaram sucessivas greves, de motivação meramente política...

A Ética é algo a que temos direito, sem dúvida, mas apenas se for também um dever de todos nós.

Hoje, o verdadeiro desafio que enfrentamos é o de ter a sabedoria de construir um futuro que se quer cada vez mais ético, através daquilo que se faz em todos os pequenos momentos do dia-a-dia.

Estar à altura do desafio apenas depende de nós...

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:38
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