Ética Empresarial e Ética Privada - Revista Prémio (2004)

Desde há muito que se fala de ética. Fazem-se muitos seminários e conferências, onde vemos muitas e bem intencionadas declarações de princípios.

No entanto, desde que este conceito começou a impactar de forma dolorosa nos negócios e, consequentemente, nas poupança e no bem estar de muitas famílias, a ética passou a ser um imperativo incontornável nas economias modernas.

Quem não se lembra do escândalo da Enron , da World.com ou da Xerox? Quem não se lembra como uma das mais prestigiadas firmas de consultoria e auditoria do mundo (Arthur Andersen) desapareceu em semanas devido a este escândalo? Efeito devastador deste mundo globalizado em que vivemos, assistimos a excelentes profissionais no desemprego devido à falta de ética de alguns colegas que trabalhavam praticamente do outro lado do mundo...

Estes acontecimentos mudaram para sempre a forma como podemos olhar para a ética.

Problema que nos preocupa desde a alvorada da humanidade, já Aristóteles definia Ética como “...a ciência prática do bem.”. Definição particularmente feliz, uma vez que, pela sua simplicidade, é facilmente entendível, e pela sua natureza operacional (ênfase na vertente prática) deixa claro desde logo que um padrão ético de conduta é, na sua essência, uma opção individual e íntima, mesmo que influenciada pelo quadro de referência cultural e social que nos envolve.

A ética surge assim como um saber prático, que visa regular a nossa acção e o nosso modo de ser/estar em função de um conjunto de valores e princípios morais, que teriam por fim último o alcance da felicidade e do bem comum. É uma peça fundamental do nosso processo de tomada de decisão, definindo prioridades numa teia de interesses que as situações e o meio envolvente nos criam.

Já Kant defendia uma enunciação geral de ética que o nosso bom senso tantas vezes nos evidencia: trata com os outros da mesma forma que gostarias que tratassem contigo. Puro bom senso, na verdade!

Curiosamente, aquilo a que assistimos é à aparente escassez deste elementar bom senso no nosso quotidiano, ou pelo menos a uma “diversidade aplicacional” difícil de entender: no emprego, muitas vezes se declara uma ética que se procura praticar (pelo menos em frente ao chefe...), havendo por vezes uma ética variável  para os clientes (conforme o segmento A, B ou C...), e caindo-se por vezes na tentação de tratar concorrentes com total ausência de ética (porque isso da ética não se aplicaria ao “inimigo”).

Já em casa, tem-se muitas vezes uma ética “privada”, menos exigente face àquela que se declara no emprego, diferente também da que se pratica com os amigos.

Se fizermos parte das elites esclarecidas, proclamaremos aos nossos filhos uma ética inatacável (assumida como valor fundamental, mas que muitas vezes nos esquecemos de praticar, através do exemplo). Se fizermos parte das classes populares, muitas vezes seremos mais “transparentes”, explicando aos nossos descendentes que “aquilo que se faz em casa não se comenta fora dela...”

E porquê esta diversidade? Porque as nossas opções e os nossos comportamentos dependem da solidez do nosso edifício moral, que é construído ao longo da nossa vida, através das experiências que temos e da educação que nos dão. Quanto mais sólidos os alicerces, mais firmes e coerentes  as opções que cada um de nós toma nas mais diversas situações do nosso quotidiano.

Em síntese, poderíamos afirmar que Ética diz respeito a valores e a princípios que visam a felicidade e o bem comum, os quais seriam operacionalizáveis através de comportamentos concretos (aquilo a que alguns chamam de Moral), ou seja, através da vivência dos valores éticos pelos Homens.

Então, se assim é, porque é que parece haver uma ética social e outra empresarial? O imperativo ético não deveria ser geral e universal? A ética não deveria ser uma ciência da acção total (e una) do homem?

De facto, assim deverá ser. E a empresa, sendo feita de pessoas e para pessoas, não pode deixar de ser vista como uma entidade moral, com direitos e obrigações sociais, com uma vivência na sociedade da qual não se pode colocar à margem, como se pudesse jogar com regras próprias.

Os cépticos e os pessimistas dirão que as empresas jogam com as regras do capitalismo, e que essas regras são claramente à parte da “moral social”.

Mas será mesmo assim? Perguntem aos executivos das malogradas Enron ou Arthur Andersen – eles confirmarão certamente que assim não é...

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:24
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