Ética e Lucro - Inforbanca (2004)

Muitas vezes ouço frases como “... hoje em dia só se fala em ética porque isso está na moda e dá dinheiro!”, e penso que tal não passa de uma generalização simplista.

Diz-nos o bom senso que um comportamento anti-ético não compensa (pelo menos num contexto em que haja liberdade entre as partes). De facto, a não ser por motivos externos ao indivíduo, ninguém, no seu perfeito juízo, se deixa prejudicar sistematicamente pelo mesmo interlocutor. Na melhor das hipóteses, deixa-se prejudicar uma única vez, devido à sua boa fé e crença na bondade do outro. Já diz o velho ditado: “...à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer.”!

Qualquer indivíduo ou organização, livres de optar, votarão ao ostracismo quem com eles se comportar de forma pouco ética. Logo, uma postura pouco ética pode gerar benefícios no imediato, mas jamais compensará a médio/longo prazo.

Os ambientes favoráveis à liberdade de escolha (democracias e economias de mercado livre) são, por definição, encorajadores da assunção de uma postura ética por parte de indivíduos e organizações.

No entanto, constata-se que as sociedades sentiram necessidade de criar normativos reguladores da vida em comunidade, da actividade económica e das trocas comerciais – como se a ética só prevalecesse pela coacção...

Não confundamos ética com legalidade: a primeira regula a nossa conduta, seja ela legal ou não. O normativo legal é uma primeira framework de referência, geralmente usada para dirimir disputas entre partes e interesses litigantes. É a primeira camada de regras, que define como deveremos conviver em sociedade. Mas ninguém é feliz ou cresce como ser moral apenas por cumprir a lei! É por isso necessária uma segunda camada, que nos determine as decisões, pela sua justeza e benefício geral e não apenas pelo mero enquadramento legal.

Muitas decisões, mesmo que inteiramente legais, são injustas ou imorais. Quem nunca se sentiu vítima deste tipo de situação, num qualquer momento da sua vida?

Agir por convicção ética, ou, então porque o bom senso diz que se ganha mais com uma postura ética do que com a atitude contrária, é um raciocínio que enfatiza a recompensa social da postura ética em vez do medo pela punição.

Os cínicos do mundo empresarial poderão argumentar que as empresas só assumem preocupações de natureza ética, deontológica, ambiental ou de responsabilidade social porque entendem que isso lhes traz vantagem competitiva. Argumentam que os gestores defendem essa postura na expectativa de maximizarem lucros, e não pela evidência da justeza dos imperativos éticos  per se.

Clarifiquemos ideias: a empresa (como qualquer outro tipo de organização) é feita de pessoas e para pessoas, pelo que têm de ter uma finalidade social que justifique a sua existência. No limite, uma empresa que seja inútil não sobrevive num mercado livre, porque não terá clientes que comprem os seus produtos ou serviços.

As empresas deverão servir um fim último mais elevado do que o lucro (devem servir a sociedade), procurando promover o bem comum e o desenvolvimento económico, através da geração de emprego, da satisfação dos seus colaboradores, dos seus clientes, dos seus accionistas (com o retorno que geram do investimento feito) e mesmo dos fornecedores (que são igualmente um parceiro a não descurar na cadeia de valor).

Esta é uma evidência das empresas nos mercados livres: o seu fim último é garantir a satisfação dos seus stakeholders e com isso contribuir para o desenvolvimento da sociedade onde se integram. Por isso mesmo, uma empresa privada não pode deixar de ser por isso uma entidade moral.

E então onde encaixa neste raciocínio o princípio do lucro?

É simples: o lucro, enquanto resultado positivo da actividade económica desenvolvida, não constitui o fim último das organizações, mas sim uma condição necessária e indispensável para a sua sobrevivência a prazo. No entanto, o facto de ser uma condição necessária, não a torna na única condição a cumprir. E é aí que a ética entra na vivência das organizações...

Procurando a empresa o benefício e satisfação dos seus stakeholders, e sendo o lucro a expressão de uma gestão adequada dos recursos colocados à sua disposição para o exercício dessa mesma actividade, a procura do lucro transforma-se, por definição, num imperativo ético das empresas.

E não pensemos que este é um argumento falaciosamente desenvolvido para fundamentar a ética do lucro: este mesmo imperativo ético existe em organizações sem fins lucrativos, sendo que em vez de lucro falaremos de “gestão eficaz”. O fundamento desta lógica é que o desperdício ou mau uso de recursos destroem valor, pelo que geram necessariamente menor benefício ou satisfação para os stakeholders. E quem poderá dizer que isto não é eticamente reprovável?

Espero que os empresários e gestores deste país tenham uma postura ética porque genuinamente acreditam que estão a fazer o que está certo. Mas o que importa realmente é saber que vivemos numa sociedade e num sistema económico que, por definição, encorajam o assumir dessa postura aos que nela não se revêm, quanto mais não seja pelos benefícios claros que a mesma traz!

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:36
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