Ensinar com as Múltiplas Inteligências - Gazeta Valsassina (2010)

Em artigo anterior vimos como a pressão competitiva nos pode levar, erradamente, a “profissionalizar” a educação, exigindo da escola uma preparação meramente funcional e profissional, para um sucesso que (erroneamente) acreditamos depender apenas do tradicional “currículo académico”.

Vimos também que educar é uma missão partilhada em que os pais são uma peça-chave da equação, devendo assegurar a articulação com a escola no acto de educar e ajudando ao desenvolvimento das nossas crianças nas múltiplas inteligências que (todos) nós temos.

As novas abordagens psicológicas (Sternberg, 2003) alertaram-nos para o facto de estarmos a olhar apenas para uma faceta da inteligência humana: habitualmente chamada “inteligência clássica”, também conhecida por inteligência analítica ou académica, medida tradicionalmente pelos teste de Quociente de Inteligência (QI). Todavia, este tipo de inteligência, certamente relevante, não representa todas as dimensões pelas quais as nossas crianças podem ser inteligentemente bem sucedidas.

E o que significa isto? Que ser inteligente hoje em dia é ser capaz de ser bem sucedido na nossa vida, tendo em conta as nossas características e o contexto em que nos inserimos, de forma a conseguirmos moldá-lo, escolhê-lo ou adaptarmo-nos a esse mesmo contexto. Como é que o fazemos? Identificando e capitalizando os nossos pontos fortes e compensando os nossos pontos fracos, através de um adequado balanceamento entre a nossa inteligência analítica e as outras duas inteligências que os nossos filhos necessitam de treinar: a) a “inteligência criativa”, ou seja, a capacidade de encontrar respostas novas para os problemas; b) a “inteligência prática”, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos e vontades para colocar em prática uma solução para determinado problema.

Significa isto que o ensino tradicional é insuficiente? Sim. É preciso saber desenvolver experiências de aprendizagem e avaliação de 4 tipos distintos, a saber: a) centradas na memória; b) centradas na análise; c) centradas na criatividade e d) centradas na realização prática.

As primeiras, centradas na memória, visam estimular a actividade neuronal com vista a recordar e reconhecer ideias, conceitos e informações que devem ser indispensáveis para uma boa manipulação do conhecimento ao nível da activação das 3 inteligências. São os exercícios mais frequentemente usados em contexto escolar, especialmente em situações de avaliação.

As segundas, centradas na análise, visam estimular a capacidade de analisar (p.ex. um problema matemático), comparar (p.ex. dois estilos literários), avaliar (p.ex. a qualidade de um poema), explicar (p.ex. um facto histórico), estabelecer juízos (p.ex. sobre uma opção moral) e criticar (p.ex. uma peça de teatro). Estas actividades de aprendizagem, em conjunto com as primeiras, resumem a esmagadora maioria da oferta da educação tradicional.

As terceiras, centradas na criatividade (ainda bastante por explorar no ensino tradicional), visam estimular a capacidade de criar (um poema, uma escultura, um jogo, uma solução, etc.), de desenhar/conceber (um novo modelo de gestão das aulas, o layout de um espaço, etc.), de imaginar (como será a vida noutro país, como as abelhas comunicam entre si, como será ser Presidente da República, etc.) e supor (o que aconteceria se a camada de ozono desaparecesse, o que seria de Portugal se saísse da União Europeia, etc.). O ensino criativo deve permitir aos alunos redefinir problemas, assegurar que encontram boas soluções, validando-as e vendendo-as aos seus pares e garantindo que conseguem treinar a sua perseverança em superar obstáculos, resolver problemas e  tolerar a ambiguidade. Para tal devem ser estimulados a fazer boas perguntas e a desafiar o status quo, pensando “fora do quadrado”.

As quartas, centradas na implementação prática (praticamente inexploradas até agora), implicam ensinar a usar (p.ex. uma lição de matemática para não gastar demais no supermercado), aplicar (p. ex. o uso da língua inglesa para ajudar um turista) e implementar (p. ex. o modelo de avaliação de investimentos no lançamento de um pequeno negócio). O ensino prático ajuda os alunos a dar utilidade ao que aprenderam, colocando os problemas em contexto real e atribuindo sentido e pertinência à aprendizagem. Para tal devem ser estimulados a avaliar as situações, a reutilizar conhecimento, a avaliar os recursos disponíveis e a obter a cooperação de outros.

Sobre a articulação entre estas novas formas de educar através de uma abordagem positiva do ensino falaremos oportunamente.

Bibliografia

Sternberg, R. J. (2003). A Broad View of Intelligence: The Theory of Successful Intelligence. Consulting Psychology Journal: Practice and Research , 55, 139-154.

Sternberg, R. J. & Grigorenko, E. L. (2000). Teaching for Successful Intelligence. Arlington Heights , IL, Skylight

Sternberg, R. J. (1997). Successful Intelligence. New York, Plume

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Ricardo Costa,
21/01/2014, 11:16
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