Aprender com as Inteligências Múltiplas - Gazeta Valsassina (2011)

Em artigo anterior vimos como as novas abordagens psicológicas (Sternberg, 2003) nos permitem trabalhar a aprendizagem para lá da chamada “inteligência clássica”, também conhecida por inteligência analítica ou académica, medida tradicionalmente pelos teste de Quociente de Inteligência (QI). Segundo esta corrente, devemos trabalhar o projecto educativo através de um adequado balanceamento entre a nossa inteligência analítica e as outras duas inteligências que os nossos filhos necessitam de treinar: a) a “inteligência criativa”, ou seja, a capacidade de encontrar respostas novas para os problemas; b) a “inteligência prática”, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos e vontades para colocar em prática uma solução para determinado problema.

Para além desta corrente, também surge como um contributo particularmente significativo para a educação a Teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que procura olhar para a inteligência através das diversas formas de desenvolver competências (Gardner, 1983, 1999).

Baseando as suas pesquisas em campos como a Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Cognitiva, o autor identifica 7 tipos de Inteligência:

·      Inteligência Lógico-Matemática: consiste na capacidade de discernir padrões lógicos e numéricos e na competência para lidar com longas correntes de raciocínio. Papéis em que este tipo de inteligência assume grande destaque são os de matemático, engenheiro, cientistas, programadores e analistas financeiros;

·      Inteligência Linguística: refere-se às competências verbais e escritas, à capacidade do indivíduo expressar as suas ideias, escutar e compreender textos, histórias e outras elaborações escritas. Constitui-se provavelmente como a competência humana mais exaustivamente estudada. Esta inteligência é exemplificada pelos poetas, que são fortemente sincronizados com o som e os significados da língua que usam. Jornalistas ou advogados são papéis igualmente considerados exemplares deste tipo de inteligência;

·      Inteligência Musical: capacidade de criar, comunicar e compreender significados compostos por sons. A inteligência musical manifesta-se tipicamente em compositores, maestros e instrumentistas, tal como em especialistas de acústica e engenheiros de áudio;

·      Inteligência Visual/Espacial: capacidade de representar e visualizar informações a partir de imagens mentais e raciocínio espacial. A inteligência espacial não depende da sensação visual, uma vez que pessoas cegas também a usam para construir imagens mentais das suas casas ou dos caminhos que usam (Gardner, Kornhaber & Wake, 1998). Para além dos papéis inerentes ao exercício das artes visuais, também esta inteligência se destaca habitualmente noutras actividades, como por exemplo as de geógrafo, cirurgiões ou navegadores;

·      Inteligência Corporal-Kinestésica: capacidade de usar o corpo, ou partes dele, para ultrapassar uma dificuldade, aprender ou construir algo. Papéis típicos deste tipo de inteligência são os dos dançarinos, alpinistas, ginastas e outros atletas de alta competição;

·      Inteligência Interpessoal: diz respeito à capacidade que uma pessoa tem de compreender intenções, motivações e desejos de outras pessoas e, consequentemente, de trabalhar eficazmente com os outros. Este tipo de inteligência é amplamente utilizada por terapeutas, professores, formadores ou políticos;

·      Inteligência Intrapessoal. refere-se à compreensão de si mesmo, a saber quem se é, como se reage às coisas, o que evitar e em torno do que gravitar. Segundo Gardner, esta inteligência desenvolve-se a partir da capacidade de distinguir o prazer da dor e de agir em função dessa discriminação. No seu nível mais elevado, as discriminações entre os sentimentos, intenções e motivações, levam a um profundo autoconhecimento, que optimiza o processo de tomada de decisão. Esta inteligência permite aos indivíduos conhecerem as suas próprias capacidades e perceberem a melhor maneira de as usar;

Os estudos sobre o cérebro demonstram que, embora todas estas inteligências existam em cada um de nós, cada pessoa apresenta um perfil de inteligências predominantes, ou seja, todos nós temos algumas inteligências relativamente às quais as nossas capacidades são melhores.

Estas descobertas vieram enfatizar o papel da estimulação do meio no desenvolvimento do potencial intelectual, com destaque para o meio educativo/escolar no desenvolvimento da(s) inteligência(s). Assim, se ao longo do seu desenvolvimento, a criança tiver oportunidade de desenvolver actividades associadas às diversas inteligências (e não apenas às duas primeiras – lógico-matemática e linguística -, associadas ao ensino mais “tradicional”) está a aumentar a probabilidade do desenvolvimento do seu potencial cerebral.

Se combinarmos a adequada diversidade de meios para adquirir competências (Gardner) com a diversificação funcional de actividades de resolução de problemas (Sternberg), teremos uma framework completa de desenvolvimento para a inteligência plena.

Sobre a articulação entre (mais) estas novas formas de educar através de uma abordagem positiva do ensino falaremos oportunamente.

Bibliografia

Gardner, H. (1983). Frames of mind: The theory of multiple intelligences (2nd ed.). New York: Basic Books.

Gardner, H. (1998). A Multiplicity of Intelligences. Scientific American(special issue), 19-23.

Gardner, H. (1999). Intelligence reframed: Multiple intelligences for the 21st century. New York: Basic Books.

Gardner, H. (2003). Multiple Intelligences After Twenty Years. In A. E. R. Association (Ed.). Chicago.

Gardner, H., Kornhaber, M. L. & Wake, W. K. (1998). Inteligência: múltiplas perspectivas (M. A. V. Veronese, Trans.). Porto Alegre: Artmed.

Sternberg, R. J. (2003). A Broad View of Intelligence: The Theory of Successful Intelligence. Consulting Psychology Journal: Practice and Research , 55, 139-154.

Sternberg, R. J. & Grigorenko, E. L. (2000). Teaching for Successful Intelligence. Arlington Heights , IL, Skylight

Sternberg, R. J. (1997). Successful Intelligence. New York, Plume

 

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Ricardo Costa,
21/01/2014, 11:13
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