Correio Electrónico – um falso dilema ético - Inforbanca (2004)

No mundo empresarial, coloca-se actualmente o seguinte dilema ético: até que ponto é legítimo quebrar o direito à privacidade dos colaboradores, para nos certificarmos que o correio electrónico está efectivamente a ser usado ao serviço da organização, e não em actividades não-produtivas?

De facto, esta enunciação parece legítima, uma vez que se colocam dois imperativos éticos em confronto: 1) o imperativo da defesa da privacidade, enquanto direito inalienável dos indivíduos; 2) o imperativo da defesa do bem comum, por via da procura da máxima produtividade, evitando o uso ilegítimo e inadequado desta ferramenta electrónica.

O direito à privacidade quer-se de facto inalienável, pelo que ninguém deve aceder ao conteúdo de correio pessoal. Mas será a caixa de e-mail da organização uma ferramenta adequada para receber e enviar correio pessoal? Não estamos a falar de uma ferramenta que é propriedade da organização?

Sendo o mail propriedade da entidade empregadora, duas hipóteses se colocam: a) a mesma não autoriza o seu uso para fins particulares, pelo que o problema da privacidade não se coloca; b) esse uso é autorizado, mantendo-se o direito à privacidade.

No entanto, mesmo estipulando que o seu uso deverá ser estritamente profissional, nada garante à empresa que assim seja feito; e mesmo que autorize o seu uso livre, surgirão preocupações sobre a sua razoável utilização, de forma a não perturbar a produtividade.

Neste ponto, urge questionar: será legítimo quebrar a privacidade para averiguar usos ilegítimos? Valerá a pena proibir outro uso que não o profissional? Conseguir-se-á maior produtividade?

Diz-me a experiência que proibições “cegas” nunca funcionam. Cortar ou restringir o acesso para fins profissionais é algo que não é bem aceite pelos colaboradores, que não compreendem a razoabilidade da medida, uma vez que penaliza todos, independentemente da postura ética que tenham assumido face a esta questão.

Sejamos práticos: este problema colocou-se há alguns anos atrás com a utilização do telefone, e nem por isso se optou por tirar o telefone às pessoas, porque cada vez mais nas organizações, as ferramentas de comunicação são críticas para o trabalho desenvolvido, em que o Conhecimento é “o” factor competitivo.

A política restritiva é assim factor de desmotivação e inibidora do potencial intelectual e de inovação que está residente em cada colaborador da empresa.

Então o acesso deve ser livre e não-controlado? Não, porque o verdadeiro problema não reside na produtividade, mas sim na segurança e na integridade da informação com que a empresa trabalha, ou seja, na defesa da privacidade dos clientes, e do seu direito a serem bem servidos.

A Internet trouxe-nos uma enorme vantagem, que reside na facilidade e rapidez com que a informação circula/flui. O seu contraponto reside no perigo potencial da informação ser acedida ilegitimamente por terceiros ou ainda de poder ser corrompida, vendo o seu conteúdo adulterado ou servindo de meio de transporte e entrada para vírus informáticos.

Neste aspecto em específico, o sector financeiro (e o bancário em especial), vive esta preocupação com particular sensibilidade, uma vez que o seu negócio implica, por definição, segurança, rigor, confidencialidade e discrição.

E é aqui que o verdadeiro dilema ético se coloca: a defesa da privacidade dos colaboradores justifica correr o perigo de ver a informação dos clientes ser adulterada/corrompida? Os danos aos clientes são menos graves que os danos que causaria a quebra da privacidade dos colaboradores?

A solução para este dilema deve assentar no princípio de que o problema ético se coloca não no acesso às ferramentas web, mas sim no uso que as pessoas delas farão. A chave da solução chama-se RESPONSABILIZAÇÃO.

Todos deverão ter acesso a este tipo de ferramentas de trabalho, para, com elas, terem as condições para desenvolverem um trabalho produtivo e útil. No entanto, sendo o acesso livre, o seu uso deve estar regulamentado de forma clara. Ao ser claro para todos como estas ferramentas devem ser usadas, passa a ser da sua exclusiva responsabilidade dar-lhes o melhor uso.

O terceiro passo da solução consiste pois em tornar consequentes os nossos actos...

As tecnologias de informação já permitem um tratamento relativamente sofisticado deste tema, como por exemplo: o uso de filtros de conteúdo, que bloqueiam a entrada e saída de mensagens com ficheiros suspeitos (ficheiros executáveis ou imagens, possíveis portadores de vírus), bem como mensagens com linguagem inapropriada (identificada por palavras-chave). As mensagens são barradas automaticamente, não havendo quebra de privacidade. Por outro lado, a nível da prevenção e protecção de dados, já há soluções de encriptação e autenticação de mensagens, com recurso a infraestruturas de chaves de segurança, que impedem o acesso à informação por terceiros de forma muito eficiente. Por fim, o recurso a técnicas de “engenharia social” para aceder a informação de forma ilegítima, através de meios de convencimento enganosos junto dos seus legítimos detentores, é algo que pode (e deve) ser combatido com medidas de divulgação, formação e prevenção junto de todos os profissionais do sector.

Através deste conjunto de pistas poderemos pois chegar à conclusão que este dilema ético pode ser um falso dilema, quem sabe se usado como justificação para não agir de forma responsável...

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Ricardo Costa,
22/06/2011, 09:40
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