As Múltiplas Inteligências na Educação: um desafio global - Gazeta Valsassina (2010)

O contexto em que vivemos actualmente é de mudança permanente, em todos os domínios da sociedade. Em todo o tipo de organizações houve que aprender a lidar com cenários em que, constantemente, as nossas premissas e convicções são questionadas por uma evolução cada vez mais permanente. Este constante devir, fruto de uma evolução tecnológica acelerada e de uma crescente abertura de mercados, conduz-nos a uma sociedade cada vez mais globalizada, em que tudo o que se passa no mundo nos pode potencialmente afectar. As sociedades, as organizações e mesmo os cidadãos têm de passar a funcionar à escala “glocal”, lidando necessariamente com as exigências da incerteza e da multi-culturalidade (Zheng & Kleiner, 2001). Perante este quadro de permanente mudança e, consequentemente, elevada competitividade, as organizações, mas também as pessoas, têm necessidade de se superarem permanentemente. Já não basta responder rapidamente às exigências do meio envolvente: é imperativo que antecipem as exigências e necessidades do futuro, às quais deverão responder de forma inovadora e surpreendente.

Considerando que fazer dos nossos filhos pessoas melhores é a missão mais relevante que temos enquanto seres humanos, muitos de nós dão por si perante uma enorme angústia: como cumprir este propósito da melhor forma?

A tendência para um ensino tendencialmente universal e a pressão para uma vida profissional cada vez mais preenchida, leva-nos muitas vezes a acomodar-nos em premissas falsas, mas psicologicamente confortáveis. Uma delas é a de que a missão de educar os nossos filhos compete à escola (pelo que se escolhermos uma boa escola podemos suspirar de alívio e esperar pelos resultados, libertando tempo para outras obrigações). Outra é a de que a educação para os tempos modernos apenas exige elevada competitividade, um plano curricular completo, variado e exigente (em que as crianças são pressionadas para a excelência em todos os domínios e de sol a sol).

Estes dois pressupostos são falsos: 1) educar é uma missão partilhada entre vários agentes educativos, sendo que os pais são uma peça-chave da equação, devendo assegurar a articulação com a escola no acto de educar e não cedendo a qualquer “economia de atenção” neste domínio; 2) a preparação para um futuro incerto e competitivo não se consegue através de um aumento do volume de actividades curriculares e extra-curriculares, sob pena de estarmos a criar “futuros executivos stressados e frustrados”, em vez de pessoas equilibradas e preparadas para os verdadeiros desafios que enfrentarão.

E como podem os agentes educativos preparar melhor as nossas crianças para o futuro? De muitas formas, mas focaremos aqui apenas uma delas: a forma como desenvolvemos as múltiplas inteligências que (todos) nós temos.

Habitualmente, o contexto escolar centra-se no desenvolvimento da chamada “inteligência clássica”, também conhecida por inteligência analítica ou académica, medida tradicionalmente pelos teste de Quociente de Inteligência (QI). Todavia, este tipo de inteligência, certamente relevante, tem por característica permitir-nos resolver problemas bem definidos, sobre os quais temos toda a informação necessária e para o qual só há uma resposta certa (tipicamente os problemas que aprendemos a resolver na escola). Ora sucede que fora do contexto escolar as coisas são por vezes diferentes: muitas vezes os problemas com que nos deparamos não têm uma formulação precisa, a informação disponível é apenas parcial (ou “digitalmente excessiva”) e o problema muitas vezes tem mais do que uma resposta certa!

E é para este novo paradigma que a educação formal (escola) e informal (pais) têm de estar preparados. Como? Sabendo estimular os outros dois tipos de inteligência (Sternberg, 2003) que os nossos filhos necessitam de treinar: a) a “inteligência criativa”, ou seja, a capacidade de encontrar respostas novas para os problemas e a capacidade de identificar novos problemas para resolver (e isto, mais do que usar as capacidades declarativas, implica treinar as capacidades interrogativas, ou seja, a capacidade de observar, ter juízo crítico e fazer boas perguntas!); b) a “inteligência prática”, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos e vontades para colocar em prática uma solução para determinado problema (o que exige boa gestão emocional, resiliência, iniciativa e competências sociais). Significa isto que estudar é insuficiente? Sim. É preciso saber estudar em grupo, produzir colectivamente, ter espaço para pensar e experimentar e tolerar a frustração e a diferença. É preciso conviver e brincar também, e tudo isto com professores e pais. Sobre estas novas formas de educar falaremos oportunamente.

Bibliografia

Sternberg, R. J. (2003). A Broad View of Intelligence: The Theory of Successful Intelligence. Consulting Psychology Journal: Practice and Research , 55, 139-154.

Zheng, A. Y., & Kleiner, C. H. (2001). Developments concerning career development and transition. Management Research News , 33-39.

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Ricardo Costa,
21/01/2014, 11:19
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